Pesquisas

1/2 copo de leite por dia é tudo o que um intolerante à lactose precisa

O senso comum sobre a inabilidade de digerir apropriadamente a lactose é que tudo se deve à genética: um gene particular presente nas células que recobrem o intestino, que permite a digestão quando somos crianças, se torna inativo ou não na idade adulta. Mas, a verdade é menos “nua e crua”. Evidências recentes sugerem que os indivíduos que sofrem de intolerância à lactose podem reduzir a ocorrência de sintomas por meio do consumo frequente desse açúcar.

Teoricamente, existiriam mais de um meio de tornar as pessoas intolerantes mais tolerantes. Uma opção seria a indução da produção de lactase, a enzima que digere lactose, nas células que não a produzem mais. Mas, pelo menos por hora, isso ainda não é possível em humanos. Ao invés disso, o método proposto por Andrew Szilagyi, um gastroenterologista da McGill University, em Quebec, no Canadá, envolve a interferência com a população bacteriana intestinal.

O que Szilagyi sugere é simples. A maior parte das pessoas intolerantes à lactose evitam o consumo de lácteos e, com isso, possuem uma população de bactérias intestinais diferente daquela presente em indivíduos tolerantes. Assim, ele defende que se as pessoas intolerantes consumirem, regularmente, pequenas quantidades de lactose, a população de bactérias intestinais será alterada, assemelhando-se mais àquela dos tolerantes e, com isso, poderão, gradualmente, aumentar sua tolerância.

Mas, quanto esse processo de tornar-se mais tolerante pode ser incômodo? A boa notícia é que pode não haver nenhum desconforto. O US National Institutes of Health concluiu que a maior parte das pessoas intolerantes podem ingerir até 12g de lactose sem apresentar nenhum sintoma. Szilagyi sugere um “treinamento” com 5g de lactose por dia, quantidade presente, por exemplo, em 100ml de leite.

Szilagyi alerta ainda que existem outros benefícios do “treinamento”, além da redução dos sintomas de intolerância à lactose. Pessoas que não consumiam leite e passam a consumir apresentam menor risco de desenvolver uma série de doenças, incluindo vários tipos de câncer, entre eles o colorretal, estomacal, mamário e pancreático; além da Doença de Crohn.

Referências: 

1. Szilagyi, A. 2015. Adaptation to Lactose in Lactase Non Persistent People: Effects on Intolerance and the Relationship Between Dairy Food Consumption and Evaluation of Diseases. Nutrients 7, 6751-6779.
2. Brown-Esters, O., Mc Namara, P., Savaiano, D. 2012. Dietary and biological factors influencing lactose intolerance. International Dairy Journal 22, 98-103.
3. Hertzler S. R. and Savaiano, D.A. 1996. Colonic adaptation to daily lactose feeding in lactose maldigesters reduces lactose intolerance. Am J Clin Nutr 64(2), 232-236 http://ajcn.nutrition.org/content/64/2/232.full.pdf+html?sid=1a59cc8b-5587-4119-8ca0-034cecef73c6
4. Szilagyi, A. et al. 2004. De-adapt and re-adapt with lactose but no cross-adapt to lactulose: A case of occult colonic bacterial adaptation. Can. J. Gastroenterol. 18, 677-680.
5. Daly, K. et al. 2014. Dietary supplementation with lactose or artificial sweetener enhances swine gut lactobacillus population abundance. Br. J. Nutr. 111, S30–S35.
6. Alexandre, V. et al. 2013. Lactose absorption and colonic fermentation after host metabolism in rats. Br. J. Nutr. 110, 625–631.

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